
"Foram tantas coisas, tantas que pô-las por escrito torna-se utópico no meu pensamento . tudo o que eu sentia, tudo o que me envolvia quando recordava momentos que passei estava impregnado em mim, aglutinado aos meus vasos, às minhas células, aos meus pedaços de ser. Desenrolava um pedaço de linha, enquanto olhava para o dia pela janela, enquanto punha os joelhos no ar, e vibrava com o sol a bater-me nas pernas e ouvia música alta, memórias de viagens de carro, memórias de jantares de grupo, sinto-me um ser de memórias. O perfume inigualável da manhã, acompanhado do mau humor, silencioso, brusco, gritante, da passagem do mundo dos sonhos, para mais um dia real. Mais um dia de papo para o ar, mais dum dia de ouvir risos de crianças quando paro perto do jardim às 10 e pouco no intervalo e vejo que são tão felizes, brincam, são inocentes, e mais logo estão em casa em segurança. Com peluches giríssimos e pais mimosos que lhes contam histórias bonitas para dormir. E eu também sou assim. Sou pequenina. E isso ninguém me pode tirar. Porque este novelo nunca chega ao limite porque a lã não é pura, púrpura. Afogo-me em bebida suaves e penso que consigo libertar-me completamente. Penso que através de ajudas inocentes os outros vão perceber aquilo que realmente se passa no meu interior, aquilo que me define como ser humano, aquilo que faz de mim eu próprio, sim, sou eu. eu. estas páginas vão concerteza ser queimadas numa fogueira linda aos olhos dos vizinhos e o fumo levará as palavras para sítios por descobrir, outros mundos, outras gentes, outras verdades. Tenho o mundo e não o tenho. Tenho o dom de estar a falar mas não o tenho, este empréstimo que o Sr de barbas nos fez ao nascer, é curioso e inteligente. Obrigada, anotas no teu grande livro que neste momento sou eu que estou a usar este corpo, esta casa, este computador, estas roupas, estes utensílios, deves ter nuvens cheias de anotações, de livros amarelos, de penas com tinta. Tinta? Será que escreves com tinta? Será que não estás sentada em paz, a ver o tempo passar, que melhor há para fazer do que estar sentado em paz a ter um momento tranquilo e a perceber realmente que naquele momento nada nem ninguém nos pode afecta, que se vier um pássaro pousar perto de nós, até sorrimos, e que achamos a natureza bela, e deixamos de ligar qualquer importância àquilo que for. Merda como isto faz sentido. Ajudar-me-ias a ser cada vez mais capaz de perceber estas coisas?
Choro porque sei que não posso ser completamente feliz. Sei que estou a um passo e que esse passo não me compete a mim dá-lo. Sei que é assim e pronto. Assumo que não quero acreditar noutra verdade, irrisória, irreal, supérflua, não quero acreditar em mais nada e cada um tem a liberdade de o fazer. Liberdades enclausurada como freiras nos conventos, como frágeis percepções de pessoas pobres de espírito de que têm tudo, de que o dinheiro é real. Encorajo-me a mim a continuar. E não sei sair daqui. Não há mundo passível de me oferecer jarros de água com limonada misturada, não há congéneres que me tragam notícias desejadas, não há fraldas por trocar, não há iogurtes fora de prazo no frigorífico, nem flores por regar. Mas esta lentidão nos meus pensamentos sufoca. Cheira a torradas queimadas quando se sai do elevador e o cheiro se escapuliu da casa do vizinho, que por outro lado tem um perfume barato. E o gato que mia sem sentido. Surpreendo-me com tudo isto. E para além disso não sou capaz de fazer mais nada que alhear-me da realidade e entrar no meu próprio mundo, tão côr de rosa, tão laranja, tão cheio de tudo aquilo que me faz z sonhar. Como olhar pela janela e ver o céu azul e as nuvens, só isso. Porque é que o céu é assim e não de outra forma, porque é que me interessam todas estas coisas? Devia deixar-me estar quietinha, calar-me estar permanentemente em silêncio, e meditar. E rezar. E continuar a abstrair-me de certas coisas.
Aquelas q coisas que nos enchem o peito e parecemos que o trazemos cheio de ralha, como numa loja de antiguidades, onde cada objecto tem um espaço, mesmo que a sua utilidade não seja simples de encontrar, e o que fazer com todo este sentimento que trago no peito? Pensei doá-lo a quem quiser neste natal, quando as luzes encherem a cidade de uma vida outra de paz. E decido a cada dia, que o certo jamais pode ficar certo sem dúvida, sem questão sem a distância entre dois seres que dormem separados por um pedaço de ar, de azoto, de dióxido de carbono e partilham uma vida de tumultos, mas quando dormem as suas almas estão longe, num mundo que não sabem identificar, nem localizar mas tudo é diferente, é uma passagem para a outra margem. È um existencialismo indefinido.
Azul, azul, azul.
Podia contar inúmeras histórias mas isso não tinha piada nenhuma. A piada está em mim.
Decidi acabar esta história de uma forma inapropriada.
Não gosto de finais felizes nem certos. Não há finais felizes, nem perfeitos. Apenas há finais e ponto. De qualquer forma senti que os sentimentos foram expressos. Os beijos dados. Os recados transmitidos. E o resto? Que resto? "
Escrevi este texto no livro relativamente a uma personagem que por lá passa... e hoje sinto que escrevi sobre tantas coisas que se adaptam às fases da minha vida, como esta que estou a passar agora...obrigado a todos os anjos que se cansam comigo!











